PERSPECTIVAS DECOLONIAIS NA SURDEZ - TRACOS DE RESISTENCIA E CONQUISTAS
DOI:
https://doi.org/10.69807/2966-0785.2026.283Keywords:
tratamento, Surdez, Audição, linguas de sinaisAbstract
O presente artigo surge das discussões que atravessam dois grandes mundos que, embora distintos, se cruzam continuamente: o mundo Surdo e o mundo Não-Surdo[1]. Tal intersecção revela-se ainda mais complexa quando observada sob a perspectiva da colonialidade, entendida como um sistema histórico, político e epistêmico que produz hierarquias e regula modos de existir, de conhecer e de significar. Nesse sentido, buscamos refletir sobre como práticas coloniais e colonizadoras ainda operam na vida das pessoas Surdas, influenciando processos sociais, educacionais, identitários e linguísticos.
A motivação deste estudo decorre de nossas vivências profissionais, acadêmicas e pessoais, que evidenciam, de um lado, marcas de opressão historicamente impostas à comunidade Surda e, de outro, a força de uma trajetória permeada por resistência e conquistas.
Observamos que a colonialidade, ao longo da história das pessoas Surdas, manifesta-se na imposição de modelos ouvintistas – também identificado nesse texto como modelos Não-Surdos, na marginalização das línguas de sinais e na deslegitimação das epistemologias Surdas. Desvelar essas práticas torna-se essencial para compreendermos os desafios enfrentados pela comunidade e ainda para avançarmos em direção a novos modelos educativos e discursivos por sua, vez mais democráticos.
Esse rompimento epistemológico encontra espaço em diversos estudos, entre eles os textos presentes nos Estudos Surdos I (2006), que revelam um movimento intelectual que tensiona as narrativas hegemônicas sobre a surdez, deslocando o foco da deficiência para a diferença e para a experiência sociolinguística das comunidades Surdas. Essa mudança de perspectiva rompe com séculos de epistemologias Não-Surdas (ouvintistas) — historicamente construídas sobre bases oralistas, medicalizantes e normalizadoras — e recoloca o sujeito Surdo como produtor legítimo de saberes, história e cultura. Nesse reposicionamento, destaca-se a alteridade como lugar de existência, o outro que se auto demarca, rejeitando imposições de qualquer ordem. Ao evidenciar que a surdez não é um déficit a ser corrigido, mas uma experiência visual que sustenta modos próprios de linguagem, subjetivação e participação social, esses estudos enfrentam os efeitos colonizadores que tentaram, ao longo do tempo, controlar corpos, disciplinar línguas e apagar identidades Surdas (Meneses, 2024; Ruzza, 2020).
Nesse sentido, tais produções dialogam diretamente com o campo da decolonialidade Surda ao problematizar as estruturas que historicamente silenciaram o conhecimento produzido pelos próprios Surdos e que naturalizaram hierarquias linguísticas e culturais. Os Estudos Surdos denunciam a imposição da norma Não-Surda (ouvinte) como referência universal e propõem práticas educativas e políticas linguísticas que reconhecem e legitimam a Libras, a cultura Surda e os espaços comunitários de resistência. Assim, colaboram para a construção de uma agenda decolonial que afirma o direito à diferença, valoriza a autoria Surda e reivindica uma reescrita da história que contemple as múltiplas epistemologias que compõem o mundo social, incluindo aquelas que emergem da experiência visual e da centralidade da língua de sinais.
A legitimidade intelectual e política deste estudo reside, primordialmente, na composição do grupo de autores e autoras que o integram. Não se trata de uma análise externa ou meramente observacional, mas de uma construção fundamentada na epistemologia surda. O grupo é constituído por quatro pesquisadores Surdos sinalizantes e dois pesquisadores ouvintes (Não-Surdos) também sinalizantes, todos com trajetórias marcadas pelo profundo engajamento social e profissional junto à comunidade Surda.
Essa configuração é essencial para o exercício do debate sobre a decolonialidade. Ao posicionar sujeitos Surdos como protagonistas da produção do conhecimento, rompe-se com a tradição colonialista de ter o "outro" (o ouvinte) como único detentor da voz narrativa sobre a surdez. A presença de pesquisadores ouvintes aliados e fluentes em Libras complementa essa estrutura, estabelecendo um diálogo que não fragiliza o debate; pelo contrário, essa multiplicidade de perspectivas, partindo de dentro da cultura surda, amplia e fortalece a análise decolonial, garantindo que as tensões e as potências da identidade Surda sejam devidamente validadas
A noção de “lugar de fala” é aqui compreendida não como limitação, mas como reconhecimento de que nossas experiências são pontos de partida legítimos para examinar estruturas coloniais e colonizadoras que atravessam a surdez, a linguagem e a educação.Assim, o lugar de onde falamos é múltiplo: o da pessoa Surda; o da pessoa Não-Surda sinalizadora; o do aprendiz de Língua Portuguesa escrita; o da pessoa Surda filha de pais Não-Surdos; enfim, o lugar de sujeitos que negociam, diariamente, barreiras linguísticas, culturais e identitárias.
Quanto aos termos utilizados neste artigo, adotamos a nomenclatura Não-Surdo/a/os/as, em consonância com perspectivas decoloniais que buscam desconstruir marcas linguísticas do colonizador. A expressão “ouvinte”, historicamente consagrada, carrega resquícios de exclusão ao reforçar o sujeito da oralidade como norma. Em contraste, a designação Não-Surdo recentra a surdez como parâmetro e desloca o eixo de referência para as identidades Surdas e suas práticas socioculturais. Essa escolha alinha-se às reflexões de Skliar (1998) Perlin (1998) e Walsh (2009), que defendem a importância de descolonizar categorias, epistemes e discursos.
Dessa forma, este artigo pretende contribuir para o debate que compreende a surdez não apenas como identidade linguístico-cultural, mas também como campo afetado pela colonialidade. Destacamos, especialmente, práticas de resistência e conquistas históricas tendo agora a pessoa Surda como protagonista na construção de saberes, políticas e narrativas que desafiam modelos hegemônicos há séculos.
Esse trabalho está dividido, além da introdução, da seguinte forma:ii) Colonialidade e Decolonialidade- atravessados pela surdez; iii)Resistências Surdas e conquistas; iv) Considerações finais.
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